Prever o apocalipse se tornou uma moda perigosa

20/02/2024

Desde sempre todo ano o SEO morre. A cada grande atualização do Google, alguém anunciava a morte do SEO.

Essa é uma narrativa apocalíptica que chama atenção, por isso jornalistas e criadores de conteúdo adoram usar “o fim de algo” como um click bait que gera visualizações e na maioria das vezes distorce a realidade com uma opinião imprudente.

Pois bem. Uma coisa não mata a outra, elas coexistem.

  • O iPhone não matou o Android (que foi criado pelo Google depois do iPhone e tem mais usuários)
  • O Linux e o iOS não mataram a o Windows, a Microsoft segue como uma das maiores empresas do mundo
  • O Playstation não matou o Xbox (ou vice versa)
  • O Uber não matou o táxi
  • Os apps não mataram os sites
  • O streaming não matou a TV
  • O streaming também não matou o rádio
  • O Airbnb não matou os hotéis
  • Os jornais se mataram sozinhos, mas é fácil culpar “a internet”
  • O hambúrguer de planta não matou a picanha
  • O Instagram ainda é maior que o TikTok, a Meta segue como o maior ecossistema de redes sociais do mundo

O Google é dono do maior ecossistema digital do mundo: YouTube, Gmail, Google Ads, Google Drive, Workspace, Meet, Cloud, Education, Analytics. A Busca é uma parte desse ecossistema. A maior parte, sem dúvida.

O Google é a maior fonte de receita do mundo para o e-commerce e para centenas de milhões de sites através da sua busca: Ads, Orgânico e Shopping.

Sem o Google, os sites de notícias perdem a maior parte da audiência. A Wikipedia acaba. A maioria dos e-commerces quebra (só sobrevive quem tiver tráfego direto relevante).

Se o Google cai a internet para.

Os dados do relatório “We Are Social” (pegou a ironia?), um dos mais respeitados relatórios globais de uso da internet provam isso:

Relatório We Are Social 2023, da Meltwater, sobre canais online de buscas por marcas
Dado do relatório We Are Social 2023

Em todas as gerações o uso de busca supera o uso de redes sociais. A geração Z é a primeira na qual o uso de redes sociais é significativamente maior (4,7%). A geração Z também é a geração que dá menos importância a sair da casa dos pais, a se casar e a fazer uma graduação (pesquisa da Accenture). Também é a geração com a menor riqueza acumulada na mesma idade que seus pais e avós. Os millenials também sofrem do mesmo problema.

Ou seja: por mais que façam uso de redes sociais, possuem um poder de consumo muito menor e que tende a crescer muito lentamente nos próximos 10 anos (e também por isso se casarão menos, estudarão menos e sairão menos da casa dos pais).

Tenho conversado com executivos de marcas importantes e vejo um deslumbre pelos creators, influencers e redes sociais, frente a uma ignorância quanto as fontes de tráfego e receita que sustentam suas operações. Bastaria uma análise do time de dados, BI ou TI para reverter essa percepção.

E aí vem as ferramentes genAI…

“Ah, mas o chatGPT tem 13 milhões de usuários por dia.”

O Google tem 2 bilhões de usuários por dia. E ainda gera tráfego, o que o chatGPT não faz.

Anos atrás a estrela da vez era a busca por voz. Experimente perguntar algo pra Alexa ou pra Siri e veja se a resposta é melhor que no Google ou no Bing.

Negacionista é quem prefere seguir a manada do que pensar por conta própria, é quem nega o óbvio e inventa história pra chamar atenção. É um perigoso jogo de narrativas.

Tenha cuidado triplicado ao ouvir narrativas apocalípticas. Você pode estar caindo no golpe do “chip na vacina”.

Cabe dizer que o Google está muito pior do que já foi sim.

Os resultados estão bem ruins. A experiência de busca se tornou visualmente confusa e as respostas muitas vezes são decepcionantes. Mas vai levar 15 ou 20 anos para o Google morrer, caso isso aconteça, o que é bastante improvável. E nesse tempo todo ele poderá reinventar a experiência de busca várias vezes.

A internet tem 30 anos de existência e é usada por pouco mais da metade da população global. Os jornais ainda existem, o rádio, a TV. O BBB esta aí para mostrar a força da TV na “cultura popular” e no comportamento.

A mudança nunca é uma ruptura, ela sempre é gradual.

Até lá, ou os criadores de mal conteúdo aceitam a verdade ou podem brincar de futuristazinhos. Vai que eles são melhores que a Mãe Dináh e acertam o futuro?

Como sempre, a realidade se impõe. Tome decisões baseadas em dados, não em narrativas.

Rafael Rez
Fundador da agência de SEO & Conteúdo Web Estratégica e co-Fundador da Nova Escola de Marketing. Autor do livro de marketing: “Marketing de Conteúdo: A Moeda do Século XXI”, publicado no Brasil pela DVS Editora e em Portugal pela Editora Marcador. Possui MBA em Marketing pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) em 2013.